por Paula M. Higa

people are people: quando você não vê que pode estar discriminando o outro

Preconceito é uma coisinha complicada. Houve época em que era mais que legítimo sentir e usar de formas pra lá de severas para fazer ele valer. Tinha e ainda tem muita gente que acha bacana segregação, mas há um bom tempo a tolerância vem ganhando espaço. Para algumas pessoas é da boca para fora, mas eu prefiro acreditar que a maioria estã baixando certos escudos e deixando de lado reações e comportamentos negativos quanto ao próximo devido a diferenças.


 Minha família é uma mistura muito louca. Meus avós paternos vieram de Okinawa, a terra do Sr. Miyagi, para o Brasil antes da metade do século passado. Já do lado materno, meu avô foi o primeiro filho de um casal de italianos a nascer aqui. E minha avó materna nasceu na Austria, e quando chegou aqui com seus 20 e poucos anos se assustou ao ver pela primeira vez um homem negro. Então diferença é praticamente meu sobrenome.

Ainda assim, preconceito pode estar escondido nos cantinhos mais obscuros e aparecer através de uma brincadeira inocente. Do lado do meu pai, sei de histórias que minha Bá não aceitava que uma das minhas tias casasse com um japonês que não fosse de Okinawa. Esse caso eu dedico para o pessoal que acha que japonês é tudo igual.

Meus tios maternos sempre moraram no meu coração e são bem esclarecidos. Devo muito a eles do que sou hoje, mas houve alguns episódios que me irritavam e eu por ser pequena demais não entendia o motivo. Hoje é tudo muito claro e chega até ser triste.

Quando eu era pequena, adorava ir a feira com eles, que ao ver uma barraca de pastel com orientais soltavam um:

Olha os seus patrícios!

Eu não tinha a mínima ideia do que eles estavam falando, eu era pequena, mas o sentimento não era bom. Parecia uma piada que eu não entendia, era chato. Não compreendia o uso da palavra patrício e mesmo depois de entender nunca achei graça, principalmente porque quando se é mestiço é difícil se encontrar. Porque você não é alguém “bem definido”. Eu não sou italiana, assim como estou longe de ser austríaca e também não sou lá a mais japonesa das pessoas. Sou uma mistura, que nunca pertenceu direito a nenhum desses mundos.

Um dos episódios de preconceito que mais me marcou foi na escola. Quando tinha uns cinco anos, meu pai começou a fazer inglês e eu adorava quando ele me ensinava algumas palavras. Quando comecei a ter inglês como matéria na 4ª série não tive qualquer dificuldade e, ao contrário das aulas normais, eu adorava o momento de ler a lição em voz alta.

Então chegou a minha vez e falei em alto e bom som:

My mom is brunette and has green eyes.

Feliz e satisfeita me sentei e quando menos esperava levei uma bronca enorme. A professora praticamente me chamou de burra/mentirosa afirmando que era impossível minha mãe ter olhos verdes. Afinal, ela era mestre em genética e dava aulas de inglês como hobbie, né?

Cheguei em casa destruída. Não muito tempo depois, em um aniversário de uma colega a professora estava na festinha e ao conhecer minha mãe, sem qualquer pudor, soltou:

Olha e não é que ela estava falando a verdade? Você tem mesmo olhos verdes!

Nem preciso dizer que o tempo fechou. Não houve briga, mas minha mãe colocou ela no lugar que devia ter se mantido, o de professora que deveria se atentar a lição, a pronuncia, ao aprendizado.

Isso sem contar os colegas que sempre acham que você tem a obrigação de saber tudo sobre matemática e exatas ou ainda acham que você deve responder quando te chamam de japoneusa. É tão engraçado, que eu rolo de rir até hoje… #SQN. Afinal, Paula é muito difícil de pronunciar, né? E mesmo se eu tivesse um nome japonês, isso não dá a ninguém o direito de me chamar do que bem entende. Uma coisa que muita gente ainda não entendeu é que não é porque o que você falou não é agressivo que deixa de ser discriminação ou preconceito. A ideia não é questionar quem sofre mais e sim, mudar a mentalidade de gente que trata as pessoas de forma diferente por razões como cor de pele, raça ou qualquer que seja a característica.

Estou falando tudo isso porque hoje meu irmão comentou como o dia a dia dele está cercado de discriminação, lembrando como as pessoas tem pré-conceitos com asiáticos, achando que todos tem vida fácil, por serem quase gênios, ricos e não têm do que reclamar da vida. Ele não é o único a sentir isso na pele. As formas de discriminação são inúmeras, no mundo inteiro, mas tenho fé que um dia enxergaremos  o outro como ser humano acima de diferenças e viveremos cercados por mais amor e aceitação, dentro e fora de casa.

Reprodução

2 comentários sobre “people are people: quando você não vê que pode estar discriminando o outro

  1. Rafaella Stallone disse:

    Você disse algo em que venho pensando muito ultimamente: pré-conceitos. As pessoas julgam demais e, na maioria das vezes, de forma errada. Aparências não dizem nada, mas tem quem ache que ela define uma pessoa.

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