cotidiano?

Acho que “de graça até injeção na testa” poderia ser eleito o ditado mais brasileiro do mundo, mas tratando-se de saúde… peramos-la.

Desde o início do ano venho passando por um check-up bastante completo, envolvendo diversos tipos de exames, algumas visitas ao consultório médico, mas nada para alarmar, é a idade chegando e aí temos que começar a pensar em check-ups e coisa e tal. Sem contar que ainda tenho esperanças de, se não me livrar totalmente, ao menos controlar a rinite, que vem gostando de chamar a atenção, especialmente nos finais de semana.

Sendo assim, quarta-feira foi dia de enfrentar o pavorzinho de injeções e visitar o posto de saúde para tomar à primeira, das três doses de vacina de hepatite B, que a médica pediu.

Momento dica
Quem, assim como eu, tiver de tomar esta vacina (não sei se serve para outras) por pedido médico recebe a vacina de graça apresentando o pedido médico por escrito.

A caminho do posto, uma avenida a ser atravessada e uma boa ação esperando para ser realizada. Eis que paro ao lado de uma velinha que também espera pela abertura do sinal. Assim como quem não quer nada ela falou do clima louco de São Paulo. Eu, que como minha mãe diz sei fingir que sou educada, não podia deixar ela no vácuo, então respondi. Vi, antes de parar ao lado dela, que segurava uma bengala, daquelas que pessoas com deficiência visual usam. E não resisti. Após crescer assistindo a desenhos animados onde os personagens principais sempre ajudavam uma velinha, neste caso quase cega, atravessar a rua, assim que abriu o sinal perguntei se ela precisava de ajuda.

Não demorou um piscar de olhos para ela aceitar. E levando ela pelo braço atravessamos dois lances de avenida. Mas engano seu se achou que a “aventura” terminou por aí. Não. Me desviando de meu caminho acabei levando ela ao canteiro central onde fica o ponto de ônibus, e como não havia uma alma viva lá , me ofereci para avisar quando o Term. Princesa Isabel passasse. Após alguns minutos, logo quando ela iria dar início à crônica “Minha Vida”, o busão apareceu. Como prêmio, ela me disse que eu tinha jeito de ter 17 anos – esquecemos por um instante que ela não conseguia enxergar, vai – e bênção e felicidade para a vida toda.

Pena que os votos não duraram muito tempo. Segui meu caminho após “brincar” de escoteira-mirim (sabe, do Ducktales?) e cheguei ao posto faltando meia hora para as 17h, horário no qual ele fecha. Só que minha fiel escudeira Maria, que também deveria ser vacinada, não havia chegado. Comecei ficar preocupada… Mas ela chegou in the nick of time. Faltavam 15min para fechar, então nos postamos na fila da sala de vacina. La dentro um casal falava com a enfermeira responsável pelas aplicações , em um papo que parecia de amigos, aquele que tem jeito de que vai demorar a acabar. Comecei a ficar impaciente, mas mantive a calma. Me mexi na fila, tentando mostrar para a moca que havia mais gente esperando, alem de nos duas havia duas mães e suas respectivas filhas esperando para ser vacinadas. O casal percebeu e tentou apressar as coisas, mas ela… ela não, fez tudo no tempo dela, isto é , devagar quase parando, vendo e revendo tudo três vezes.

E como uma pessoa bem educada que passou pelo treinamento dado pelo governo: como tratar as pessoas que querem nada mais do que ficar ou se manter saudáveis ela olha para o relógio e vê 5 para as 17h e pergunta:

Enfermeira: Qual a sua função?
Eu: Desculpa, não entendi. A minha função?
Enfermeira: O que você faz?
Eu: O que isso tem haver com alguma coisa?
Enfermeira: O que você esta fazendo aqui?
Eu: Esperando para ser vacinada! (oras)
Enfermeira: E cadê o bebê?
Eu: Que bebê ???… Eu que vou tomar a vacina.
…então acontece uma olhada para Maria…
Enfermeira: E você o que ta fazendo?
Maria: Sou irmã dela e também estou esperando para tomar vacina.
Enfermeira: E quantos anos vocês têm?
Eu: Tenho 25, mas estou com a receita para a vacina de Hepatite B. Ela está com 18, e falta uma dose.
…Ai o ser “gentil” faz silêncio , olha de novo para o relógio…
Enfermeira: É vou ver se vai dar pra atender vocês.

Maria olhou para mim e sorriu e depois disse: Sabia que você esta linda hoje? Não vi minha cara em um espelho, mas aposto que era a mesma que faço quando estou prestes a trucidar alguém. Coisa que até a moça que esperava atrás da gente com a filhinha percebeu e deu um sorrisinho.

Acho que todo mundo sabe como sou uma pessoa totalmente “contra barraco”, que não tem o costume e não pratica a arte de defender seus direitos (erro, eu sei), mas naquela hora o sangue ferveu e a razão zarpou. Tanto que estava pronta para discutir com a enfermeira que, sendo boazinha, era três vezes maior que eu. Estava pronta não porque acho que seria legal brigar, mas porque tinha certeza que tinha o direito de estar lá , tendo conferido três vezes, em fontes diferentes que apresentando minha receita deveria receber a vacina gratuitamente, porque cheguei antes do horário limite.

Enquanto tudo isso passava pela minha cabeça, acompanhado da idéia tentadora de simplesmente ir embora, o sangue esfriou e resolvi fingir que ela não havia sido estúpida e conseguir completar a minha missão lá . Enrolada que só ela, a mulher demorou a atender a gente mesmo depois do casal ter ido embora. Ficou olhando para minha receita meio pasmada, virava de um lado, virava do outro, apesar de não ter nada escrito no verso e apenas meu nome, a vacina, as doses e a assinatura da médica no outro. Me forçando a um exercício (árduo) de paciência.

Depois de inspecionar, e muito, a receita, ela finalmente nos deu as benditas vacinas. Aplicou a injeção sendo consistente a sua forma de atender, isto é , na brutalidade. Detalhe, ela se recusou a vacinar a menininha que estava com a mãe logo a trás da moça que veio depois da gente, porque eram mais de 17h. Sendo que foi culpa dela a demora nos atendimentos. Se não fizesse caso ou brincasse de comadre, todas as meninas sairiam com bracinhos doloridos, mas vacinas em dia. É ai que vejo como o Brasil vai longe.

E então vem a minha cabeça o pensamento: para que facilitar a vida das pessoas quando dificultar deixa tudo mais interessante?
Se não fosse por ela, meu dia teria sido bem melhor, mas menos interessante. Eu teria conseguido chegar à casa a tempo de ver o fim do jogo do Manchester e só teria a história de como foi minha experiência de escoteira e um post incompleto.

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6 comentários sobre “cotidiano?

  1. Vanessa disse:

    Tem umas enfermeiras que fazem a coisa de tão mal agrado, sabe? E acabam descontando suas mágoas nas agulhas em nosso corpo. Além da estupidez verbal gratuita. Como se fosse um imenso favor elas estarem TRABALHANDO e GANHANDO para nos atender. Eu acabo ficando furiosa com esses atendimentos.

    Beijo, Flor!!!

    P.S. – Velhinhas são demais, né? Especialmente p/ contar historias, mesmo que num ponto de ônibus!

    • paulinha mihuda disse:

      Total Van, acho um absurdo pessoas que “cuidam” de outras serem assim… Acho que em muitas profissões deveriam levar em conta, além do talento o tato… Tipo, médicos, enfermeiros, policiais… e assim vai. E sim, velinhas são “seres” interessantes!

  2. Rafa disse:

    Se eu disser que essa mulher é uma mal amada (pra não dizer outra coisa), seria grosseria da minha parte?
    Claro que é difícil não levar problemas pessoais pro trabalho, mas quem lida tão diretamente com pessoas, muitas vezes em situações delicadas, deveria realmente ter mais tato e deixar os problemas em casa ou até mesmo rever sua escolha profissional.

    • paulinha mihuda disse:

      É Rafa, de certa forma você tirou as palavras da minha boca. Convenhamos que ninguém gosta de fazer hora extra, e separar vida pessoal de profissional é bem complicado, mas é covardia fazer com que os outros “paguem” por sua frustração com a vida. Ainda mais quando crianças estão envolvidas. A bebezinha (de colo) que estava na minha frente sofreu!

  3. Lótus disse:

    Temos discutido se o atendimento em saúde, qdo mal prestado, não é um tipo de violência contra o cidadão, no caso, contra a mulher. Eu voto no sim. E é mais comum do que a gente imagina, né… uma vacina de nada e olha só o tanto que te estressou…

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